Somos a resistência. Resistamos.

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Somos a resistência. Resistamos.

O retorno a um lar que se despedaça, mas insiste em resistir.

Miguel Moura

Miguel Moura

Produtor Cultural em Rebuliço
Miguel formou-se em literatura inglesa pela UERJ e faz do cinema e da fotografia suas ferramentas de resistência. Na Rebuliço, converge suas paixões em prol do fortalecimento e disseminação da cultura popular brasileira - e carioca.
Miguel Moura

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Hoje eu fui à UERJ. Fiz o trajeto que repeti durante 5 anos e duas greves. Sai do metrô, avistei o Maracanã, lembrei com nostalgia da rampa que descia de outro jeito e levava pro estádio mais incrível do mundo. Divago – mas nem tanto.

Segui meu caminho, adentrei aqueles imponentes prédios cinzas, subi até o meu andar, o 11o, percorri seus corredores monocromáticos com a melancolia que só o tempo e a distância são capazes de produzir. Engraçado como a estética um tanto quanto sombria da UERJ em minhas memórias ganham saturação e cor. A paleta é outra, essa do apego.

Caminhei refazendo trajetos, relembrando papos que não tenho certeza se existiram, momentos hoje um tanto embaçados pelo tempo; revivendo pessoas que não existem mais – eu, inclusive. Louco pensar nas versões de nós mesmos que deixamos pra trás e que foram se transformando ali. Pensar em como a realidade do ensino público ensinou tanto a um moleque de 18 anos que passou a adolescência toda ouvindo o discurso monocórdio da educação privada. Não tinha lugar melhor pra cair na real. Caí.

Sempre que volto à UERJ, sou tomado por um mix de sensações conflitantes que deixam sempre um sentimento meio agridoce. Hoje, especialmente, a melancolia virou tristeza. Há poucos dias, ameaçaram fechar as portas da minha Universidade. Logo ela, a mais democrática de todas, a pioneira na inclusão social, a mais acolhedora das instituições de ensino! Não é por acaso.
Irônico pensar que onde se construiu a UERJ, um dia já existiu uma Favela conhecida como Esqueleto. Hoje andei por corredores esvaziados e salas desabitadas que mais me remetem às fotos dessa antiga favela do que as minhas lembranças muito mais recentes.

Nada simboliza mais o momento em que vivemos do que o fechar as portas da UERJ. Nenhum signo, entre tantos, evidencia mais o nosso fracasso e escancara nossas derrotas quanto a notícia de que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro pode fechar, por tempo indeterminado. Fechar a UERJ é colocar de volta as correntes que sempre prenderam os excluídos. É tentar devolvê-los à margem. E isso não é efeito colateral, é projeto.

Não à toa, escolhi falar da UERJ em meu primeiro texto aqui na Rebuliço. Além da sua importância na minha vida, lutar por sua existência se confunde ao valores identitários que reconhecemos e pregamos como primordiais na nossa luta pela valorização da cultura popular brasileira. Essa valorização começa na educação, e a UERJ, a mais plural das universidades, é ferramenta primeira contra o retrocesso.
Somos profissionais da cultura, e a cultura do nosso Estado está intrinsecamente ligada a existência da UERJ. Somos a resistência. Resistamos.

#UERJRESISTE

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