Na era do feat, quem agrega é o rap

João Suprani Música Leave a Comment

Na era do feat, quem agrega é o rap

Enquanto a grande indústria produz encontros que garantem resultados impressionantes, o rap investe nas cyphers visando o crescimento de toda uma cena.

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Sempre houve parcerias musicais. Muito antes do mercado fonográfico se estabelecer, artistas já se aproximavam para compor, produzir e cantar músicas juntos. Por afinidade artística ou relação pessoal, esses encontros musicais foram responsáveis pelo surgimento de grandes clássicos e colaboraram imensamente para a evolução da música.

Há alguns poucos anos, o Brasil se rendeu ao feat. Mas peraí: Se as participações especiais sempre foram frequentes na música brasileira, qual o sentido dessa afirmação? Acho difícil cravar uma resposta, já que aparentemente pode parecer só marketing. Mas não, de certa forma, o feat formaliza a parceria em outros âmbitos além do artístico, e pressupõe um equilíbrio maior no destaque dos envolvidos. Enquanto a participação era uma pontinha, o feat é uma divisão de importância mais justa. O uso do termo gringo é só complexo de vira-lata adequação ao mercado internacional mesmo.

Enfim, o que importa é que o pop brasileiro absorveu como ninguém essa prática, extremamente disseminada no mercado americano, especialmente no mainstream pop/eletrônico/hip hop. Para se ter uma ideia, desde o início de 2016, Anitta, a rainha do feat, já se juntou a Simone e Simaria, J Balvin, Nego do Borel e Wesley Safadão, Maluma, Iggy Azalea, Pabllo Vittar e Major Lazer, e o público segue especulando quem serão os próximos (Justin Bieber?).

“Loka”, um feat de Anitta com Simone e Simaria

Um detalhe importante: Anitta não lança um álbum desde 2015, ou seja, todos esses feats foram lançados como single e isso diz muito sobre o mercado atual de música. Em uma realidade que demanda produção constante de conteúdo, como falado no meu último artigo sobre covers, o feat aumenta o de alcance de público, reduz custos e, inegavelmente, gera músicas interessantes. É uma tendência que faz todo sentido. Mas onde eu quero chegar?

Quem se alimenta de feat?

A prática dos feats tem funcionado de uma forma quase padrão: grandes nomes se juntam a outros grandes nomes para lançar hits instantâneos; Artistas de médio alcance se juntam a outros de médio alcance para tentar alavancar-se; Aos pequenos, resta buscar outros artistas pequenos e ir acumulando montes de público aos poucos.

Ivete Sangalo e Wesley Safadão em “À Vontade”

Em um mercado cada vez mais fechado, a pirâmide artística não se dispõe a movimentações e, sim, vejo isso como um problema. De qualquer forma, esse texto não é uma crítica ao feat, mas uma apresentação da alternativa colaborativa mais interessante que vi ultimamente. Vamos falar do rap, vamos falar das cyphers.

Antes de entrar no assunto, preciso afirmar: O rap nacional é foda. Mesmo não sendo um grande consumidor do estilo e geralmente só chegando a artistas que já estão com certa visibilidade, não posso deixar de valorizar uma cena que, de maneira totalmente independente, se articulou e hoje está entre as mais relevantes da música brasileira (se não a mais).

Além das questões artísticas, que fizeram até a grande mídia discutir há alguns ans se o rap é o novo rock, seu grande trunfo é a forma como se movimenta e se retroalimenta para que siga se renovando em ideias, formatos e, especialmente, artistas. Claro que, como em qualquer cena, há problemas e discordâncias, mas a estrutura é essencialmente colaborativa.

Aliás, não podemos ignorar a origem do rap para entender essa característica. Oriundo da rua e com a improvisação na essência, tanto nas rimas e nos videoclipes, quanto no jogo de cintura para seguir produzindo sob olhares preconceituosos, o rap, mais do que outros estilos, entendeu a necessidade de relacionar-se e criar caminhos em conjunto.

Mesmo estabelecido e com artistas despontando no cenário nacional, o rap não perdeu seu propósito e, desde 2016, intensificou a produção das cyphers, vídeos com vários rappers dividindo faixas de 8, 9, 10 minutos. Praticamente uma grande batalha de rima, mas sem o peso de ganhar ou perder.

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A hora e a vez da cypher

A expressão cypher surgiu dentro do próprio universo hip hop, mas relacionado a outro elemento que não os MCs. Um termo clássico dessa cultura, que nada mais é que as rodas de dança formadas por b-boys e b-girls para apresentação de passos improvisados, geralmente com um dançarino entrando por vez.

Se apropriando da expressão, o rap começou a utilizá-la para denominar grupos de MCs que se revezavam na improvisação. Com o surgimento da internet e a facilidade de produzir conteúdo em vídeo, os cyphers começaram a ser amplamente postados no YouTube e em redes sociais, de forma a aproximar os públicos dos MCs e apresentar novos nomes. O improviso do rap, obviamente, facilitou uma produção intensa.

Mos Def e Eminem em cypher de 2009

Nos Estados Unidos, as cyphers estão estabelecidos há pelo menos uns dez anos, com grandes nomes do rap, como Eminem, Kendrick Lamar e Nicki Minaj, tendo participado de vídeos antológicos. No Brasil, o grande momento da cypher é vivida agora.

Acredito que esse lapso tenha se dado pela consistência que o rap nacional só atingiu há alguns poucos anos. Mesmo que já houvesse MCs brasileiros fazendo cyphers, o que vemos hoje é uma produção maciça e extremamente relevante, que acredito ter importância não apenas para a cena, mas também como exemplo de colaboração para outros gêneros.

Rincon Sapiência em cypher com outros 5 MCs

É difícil precisar quando os cyphers começaram a ser produzidos no Brasil, assim como entender os motivos do boom, já que há uma quantidade razoável de material postado a partir de 2013. De qualquer forma, acredito que o lançamento de “Mandume”, lançada em 2015 por Emicida no álbum “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa…”, tenha sido uma faísca importante. Mesmo que a música não se apresente como um cypher, conta com participação de nada menos que 5 MCs além de Emicida: Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike e Raphão Alaafin.

“Mandume”, uma das músicas mais importantes dos últimos anos

Entender a importância dessa música para o boom do cypher é simples: Um artista de projeção nacional apresenta novos rappers que, mesmo já com bastante visibilidade na cena, puderam ter projeção nacional. Apesar de nada mainstream, a começar por seus 8 minutos de duração, a faixa teve muito impacto e apresentou ao Brasil mais uma forma – sem vaidades – de retroalimentação do rap.

MV Bill é um dos 4 rappers na cypher “Favela Vive 2”

Muito mais que outros estilos, o rap construiu um cenário onde o contato e a troca entre artistas grandes e pequenos parece mais viável. Isso certamente incentivou a produção de vídeos em parceria, já que gravar um vídeo com um MC respeitado tornou-se foco de vários novatos. Além disso, numa cena que valoriza os artistas que “não se vendem” e “incentivam a própria cena”, nomes relevantes também se colocaram à disposição para realizar cyphers com artistas novos ou restritos ao nicho. Além de um propósito, também torna-se interessante comercialmente.

Cypher do grupo “Rimas & Melodias”, que tem com Tássia Reis e Drik Barbosa como integrantes

Atualmente, vemos vários rappers importantes lançando materiais nesse formato. Podemos citar, por exemplo, Rincon Sapiência, que talvez seja um dos nomes mais ativos; Tássia Reis, que inclusive faz parte do projeto “Rimas & Melodias”, um coletivo de mulheres rappers que conseguiu grande alcance com cyphers; MV Bill, um ícone do rap nacional que se juntou a outros nomes de peso, mas com baixa projeção nacional; e até mesmo MC Soffia, rapper de 13 anos que já lançou dois vídeos com outros rappers mirins. Enfim, artistas que acumulam milhões de views e fomentam a cena em cyphers, colaborando para um maior alcance de seus parceiros e para que o rap nacional siga sustentável.

MC Soffia e outros 5 rappers mirins na “Chyper Kidz”

Ou seja

Fomentar a cena é um dos propósitos do rap nacional e, mesmo que pareça uma questão fundamental do mercado de música, torna-se uma virtude, considerando uma realidade em que outros gêneros não se preocupam em fazê-lo. Pior, os grupos hegemônicos seguem se fortalecendo e o acesso de novos nomes torna-se cada vez mais difícil.

Enquanto a grande indústria cruza públicos e incentiva encontros que promovam resultados garantidos e impressionantes, o rap apresenta as cyphers como um formato criativo de pensamento a curto, médio e longo prazo, que traz resultados diretos, em números, e indiretos, em respeito à cena e valorização da produção nacional.

Acredito muito em propostas do tipo e acho fundamental que outras cenas e gêneros passem a se articular para crescer em conjunto. Com a produção independente cada vez mais estabelecida como um caminho viável, trabalhar para um crescimento conjunto parece a melhor saída.

Para finalizar, preciso repetir: O rap nacional é foda.

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