A Resiliência da Arte (ou A Arte da Resiliência)

Raphael Sanguinete Arte 0 Comments

A Resiliência da Arte (ou A Arte da Resiliência)

Quando se fala sobre resiliência, em 90% dos casos, são papos da boca pra fora, utilizando a palavra de forma vazia. Juro que esse texto não é (só) sobre isso.

Raphael Sanguinete

Raphael Sanguinete

Produtor Cultural em Rebuliço
Administrador, Produtor e Gestor Cultural, entusiasta da economia criativa e de novas tecnologias, no (pouco) tempo livre é tricolor de arquibancada, assíduo em botecos e admirador das coisas e personagens simples e sinceros que podemos encontrar mundo afora.
Raphael Sanguinete

Show, você entrou no meu texto apesar do título meio sensacionalista!

Se está aqui, provavelmente você é um:
Artista e/ou
Produtor e/ou
Empreendedor e/ou
Tudo isso junto.

Mas por que esse texto é para essas classes e porque imagino que ele será uma leitura legal?

Cara, simplesmente porque você está numa das posições mais complicadas possíveis para se estar profissionalmente no Brasil.

A não ser que seja um dos raros casos de artista/produtor que se estabeleceu rapidamente, você precisa ler sobre essa situação em que está e entender melhor ela, porque diariamente, ou semanalmente — que seja quinzenalmente, se questiona se o caminho que está seguindo é o correto.

Vamos ser diretos? É! É o correto.

Mas pera lá! To muito direto, né? Vamos contextualizar:

Sabiamente e de forma “disruptiva” (rs provocativos), você resolveu seguir uma carreira pouco usual.

Provavelmente, em algum momento da sua vida falaram, ou falam, ou vão falar, para que se tornasse um médico, advogado, engenheiro, fizesse algum tipo de concurso público, ou seguisse qualquer outra carreira de uma pessoa “de sucesso”.

Eu sei que é uma pessoa capaz, criativa e poderia ser o novo Dr. Drauzio Varella (aquele homão da porra!).

Mas fez sua escolha e ela não é essa.

Agora, provavelmente ainda está longe de alcançar os objetivos que busca, talvez esteja ganhando pouco dinheiro, provavelmente está trabalhando muito, e tudo isso com o ótimo incentivo de receber pouco reconhecimento sobre o seu trabalho, já que ainda não é “bem-sucedido”. E apesar disso tudo, segue nesse caminho tortuoso que resolveu trilhar.

Postar fotos no Instagram dos momentos em que algo está dando certo é uma boa forma de amenizar sua dor existencial. #meidentifico

Miroslav Tichý e sua famosa câmera de qualquer coisa: isso é resiliência!

Nesse ponto deve estar pensando: “entrei nesse texto porque achei que o cara ia dar uma moral e o maluco só quer me esculachar”.

CALMA GAFANHOTO! Vou te dar moral também, desiste não!

Tive uma conversa há pouco tempo com um amigo que é cineasta independente, no Bar da Cachaça (Lapa). Como o amigo leitor talvez saiba, também trabalho com cinema aqui na Rebuliço.

Foi uma conversa bêbada, verdadeira e profunda. Discorremos sobre mercado, excessiva quantidade de trabalho, minúscula quantidade de dinheiro, caminhos a seguir, mudanças a fazer, decisões a tomar…

A única coisa que ficou clara da conversa foi:
– Cara, tamo fudido.
….(um gole de cerveja, seguido por um suspiro profundo)…
– É…Tamo fudido.

Mas sabe o que me impressiona?

É que apesar dessa constatação óbvia, evidente e manifesta, indiscutível e irrefutável…
dali a dois minutos estávamos conversando sobre produzir algo juntos.

E é sobre isso, na verdade, que eu quero falar.

Nem meu amigo nem eu perdemos o brilho nos olhos ao falar sobre cinema e cultura naquela conversa, apesar de constatarmos racionalmente que estamos na merda.

Sabe por quê?

A gente não consegue.

E possivelmente, você também não consegue parar de fazer as coisas que faz, mesmo não sabendo objetivamente o motivo para se comportar dessa maneira quase autodestrutiva.

Mas é isso.
Isso é a sua vida.
Esse é seu objetivo.

Peneira & Sonhador embolando sobre a vida complicada do artista “pobre”

Não conseguir deixar de fazer isso, apesar de todos os perrengues que tenho certeza que passa, tem um nome: RESILIÊNCIA.

Foda-se a apropriação por empreendedores de palco. Saiba que essa palavra é tua, artista/produtor brasileiro.

Nem falo empreendedor, porque empreendedor você já é desde que nasceu, e seu produto, que é a sua arte, um dos ativos mais desvalorizados por essas bandas Brazilis, começou a ser criada.

E o único caminho para conseguir viver da arte, com um retorno financeiro minimamente aceitável é:

A) Fazer cursos que ensinam a dar cursos sobre uma profissão com a qual nunca ganhou dinheiro.
B) Pensar positivo que tudo vai dar certo.
C) Reclamar que o Luan Santana não faz arte e é comprado da mídia.
D) Reclamar que o Fulano tem o padrinho Sicrano.

Infelizmente, todas as alternativas anteriores estão erradas e o único caminho para ganhar dinheiro com empreendimentos, artísticos e culturais principalmente, é trabalhando, se organizando e sempre mantendo o ímpeto de crescer na sua área, ao se especializar cada dia mais através de conhecimento empírico.

Sim, nas quebrada o nome científico para isso é: Botando a cara!

Não tem fórmula. Tu vai ter que correr atrás.

Mas você já partiu na frente por ser o resiliente raiz, que desde 10 anos ouve da tia chata que tocar violão não dá futuro.

O lado bom é que, assim como você, existem milhões. Então não precisa se sentir solitário nessa jornada de perrengues.

O lado ruim é que nem todos vão conseguir viver de sua arte, infelizmente. Mas isso é conversa pra outro post…

Porém, não ouça a tia chata que existe dentro de você.

Não ouça o blogueiro novato que você lê nesse momento.

Não ouça.

Porque não vai adiantar. No seu caso, a resiliência não é virtude, é necessidade intrínseca e eterna para sua própria realização pessoal.

E com ela, siga em frente!

Esse texto no fundo é apenas isso: pouco conteúdo e muita motivação. Talvez eu tenha te enganado e também esteja sendo leviano com a palavra “Resiliência”. Mas às vezes, tudo o que a gente precisa para conseguir sair de um ponto de estagnação é saber que não estamos sozinhos e lembrar que até grandes nomes como Lenine e Nação Zumbi passaram por seus problemas. Se tiver dúvida, basta pesquisar um pouquinho sobre a história deles e em seguida…

SEJE CUPIM DE FERRO!

eu sei de todo caminho que andei
sou feito de barro batido e berro
sempre topei com madeira de lei
a ciência já me fez cupim de ferro
O podre se apodera
A lama fertiliza
O gongo vocifera
O terno viraliza
O coração pondera
Quando a razão rivaliza
A vida reverbera
O tempo imortaliza
A dor é passageira
O amor se cristaliza
O coração severa
Quando a razão enraíza
A turba aterroriza
A hora desespera
A alma suaviza
A carcaça venera
E o coração espera
Quando a terra é movediça
A nuvem satiriza
O céu dessa janela
O olho finaliza
A lente só revela
E o coração numera
Cada batida esquecida
Eu sei de todo caminho que andei
Sou feito de barro batido e berro
Sempre topei com madeira de lei
A ciência já me fez cupim de ferro

——

Com esse texto, quase autobiográfico de nossa história, a Rebuliço também segue em frente na sua resiliência, e começa a produzir conteúdo diário aqui nesse canal de comunicação. Vem com nóis, curte, compartilha!

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